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COMMODITIES AGRÍCOLAS: Os \"fundamentos\" estão de volta

Após passarem boa parte de 2008 em segundo plano, ofuscados por grandes movimentações financeiras muitas vezes originadas em outros mercados, os chamados "fundamentos" voltaram a prevalecer neste início de 2009 nas principais bolsas internacionais de commodities agrícolas.

Decorrente, em boa medida, da redução das apostas de fundos de hedge e de índices nas bolsas que negociam produtos como milho, soja e trigo (as agrícolas globalmente mais negociadas), a recuperação de influência dos fundamentos de oferta e demanda ajuda a explicar a retomada de transações, no mercado futuro, de papéis que prevêem entregas físicas, em detrimento de contratos com liquidação financeira.

Movimento - E, como a partir de dezembro, as principais notícias ligadas aos fundamentos foram consideradas "altistas" - a demanda chinesa por grãos aumentou, enquanto as safras em desenvolvimento na América do Sul sofrem com problemas climáticos-, o movimento também clareia o aumento dos preços nas últimas semanas, apesar de todas as incertezas e oscilações que ainda enervam traders e analistas.

Emblemática por ser a principal referência mundial para as cotações da trinca, a bolsa de Chicago baliza a recente recuperação de milho, soja e trigo, apesar das fortes retrações observadas ontem, como aponta o Valor Data baseado nos contratos futuros de segunda posição de entrega.

Relevância - Commodity agrícola mais negociada em Chicago, o milho atingiu seu pico histórico de US$ 7,6825 por bushel (cada bushel de milho tem 25,2 quilos) em 26 de junho de 2008. A partir dali passou a cair, em velocidade acelerada a partir de meados de setembro, até atingir, em 5 de dezembro, sua cotação mais baixa no ano (US$ 3,0925). Do teto ao piso, a queda foi de 59,75%, mas do piso para cá a alta chegou a 38,16%. Ontem, o bushel fechou a US$ 4,2725, baixa de 2,45%, justamente pelo aumento da oferta física de produtores animados com a melhora do cenário.

"Os preços voltaram ao patamar 'pré-bolha' e os fundamentos recuperaram espaço", afirma Leonardo Menezes, analista da Céleres baseado em Uberlândia (MG). "Pelos fundamentos, soja e milho deveriam ter subido antes. Os estoques permanecem baixos e a oferta ainda está apertada em relação à demanda, que não mostrou sinais de queda", disse Amaryllis Romano, da Tendências Consultoria. Para a economista, os fundamentos ganharão mais relevância nos próximos meses.

Trajetórias - A

soja seguiu o rumo. Da máxima de US$ 16,49 por bushel (cada bushel de soja equivale a 27,2 quilos) de 3 de julho de 2008 até o piso anual de 5 de dezembro (US$ 7,8725), a retração foi de 52,26%. Nessa quarta-feira (7/01) houve queda de 2,56%, para US$ 9,90, mas mesmo assim do piso para cá a valorização ainda atinge 25,75%. No trigo, do teto de 12 de março ao piso de 5 de dezembro, a baixa foi de 62,92%, e desde então os ganhos atingem 31,65%. Nessa quarta,  o bushel (27,2 quilos, como a soja) recuou 4,65%, para US$ 6,26.

Vinícius Ito, analista da Newedge baseado em Nova York, acredita que os fundamentos atuais, mais "altistas" para soja e milho do que para o trigo, sugerem que esse pode ser um patamar de equilíbrio ao menos para a soja - dependendo, é claro, dos decibéis da crise financeira e da desaceleração econômica mundial, para a qual as projeções ainda apresentam grandes disparidades.

Contratos - Nesse mercado (que em Chicago é menor que o de milho mas maior que o de trigo), em meados de 2008 as posições compradas dos fundos de hedge, que operam papéis com liquidação financeira, chegaram a 170 mil contratos. O volume tombou para 15 mil no início de dezembro e agora se aproxima de 40 mil.

As posições compradas dos fundos de índices, também focados em operações financeiras, foram na mesma linha. Chegaram a quase 170 mil contratos de soja em Chicago em meados de 2008 e hoje estão em torno de 94 mil. É evidente, portanto, que também essas apostas financeiras ajudaram na recente recuperação, mesmo com o maior "espaço" ocupado pelos fundamentos.

Oscilações - Ito observa, porém, que os index funds começam agora a rebalancear suas posições. Como o cenário para a inflação global mudou, diz ele, o mercado espera nova redução da aposta em commodities agrícolas.

É por essas e outras que Amaryllis Romano, da Tendências, e quase todos os analistas ainda esperam fortes oscilações de preços no primeiro trimestre. Ela, particularmente, crê que, exceto para o açúcar, dessa instabilidade sairão preços médios anuais mais baixos para as principais commodities agrícolas em 2008. Se todas as incertezas que cercam os mercados permitirem. (Valor Econômico)

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