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China – futuro da segurança alimentar

O crescimento extraordinário do agronegócio brasileiro nas últimas quatro décadas combina recursos naturais, tecnologia tropical e produtores arrojados. Mas deriva também da imensa demanda chinesa por commodities agropecuárias. 

FOTO: Samuel Milléo Filho / Gerência de Comunicação e Marketing do Sistema Ocepar*Marcos Jank

O crescimento extraordinário do agronegócio brasileiro nas últimas quatro décadas combina recursos naturais, tecnologia tropical e produtores arrojados. Mas deriva também da imensa demanda chinesa por commodities agropecuárias. A transferência de mais de 200 milhões de trabalhadores rurais para as cidades criou a indústria manufatureira mais competitiva e a maior classe média emergente do planeta. Por conta disso, nossas exportações agro para a China cresceram 20% ao ano desde 2000 e, hoje, somam mais de US$ 50 bilhões anuais. A China é o maior importador mundial de commodities agropecuárias e o Brasil, seu maior fornecedor.

Mas a China não brinca em serviço no tema segurança alimentar. Em março, saiu o 15.º Plano Quinquenal (2026-2030) com uma novidade conceitual: pela primeira vez, a agricultura deixa de ser um problema econômico-social para se tornar questão de segurança nacional e existencial do Estado chinês. É a inflexão mais significativa desde que Deng Xiaoping desmontou o coletivismo das comunas de Mao Tsé-tung, que havia produzido a Grande Fome de 1958 a 1962. Agora, a agricultura será tratada como prioridade de segurança e fronteira tecnológica de ambição global da China.

As metas são concretas: produção de 725 milhões de toneladas de grãos por ano, mais que o dobro da produção brasileira; expansão de terras de alto padrão com irrigação e mecanização, sementes soberanas com biotecnologia em larga escala; mais seguro e crédito e melhor infraestrutura no campo. Outros temas são o aumento da renda rural, a integração urbano-rural e programas de saúde e educação no campo, onde predominam milhões de pequenos produtores já idosos.

O plano aposta em biologia sintética e proteínas alternativas como fronteiras de inovação, temas ainda sem metas numéricas. A consultoria global Systemiq publicou recentemente o relatório China’s Food Future, afirmando que a China vai reduzir suas importações de soja em 25% até 2030 e que as proteínas alternativas vão atender entre 35% e 55% da demanda de proteína animal até 2050. Essas projeções precisam ser lidas com ceticismo. Sistemas agroalimentares são governados por biologia, agronomia e cultura, e são muito mais resistentes à transformação rápida do que painéis solares, baterias e veículos elétricos, onde o sucesso chinês foi enorme.

Enquanto o potencial de crescimento da oferta agrícola brasileira é imenso, o da China é limitado pela escassez de terras férteis e restrições severas no uso de água. A China continuará sendo o maior produtor, consumidor e importador de produtos agropecuários do mundo por muito tempo, e o Brasil, seu fornecedor mais competitivo e confiável. Mas a prudência nos recomenda buscar outros mercados.

*Marcos Jank é professor sênior do Insper e coordenador do Núcleo Insper Agro Global

**Originalmente este artigo foi publicado no jornal O Estado de SP no dia 15/05/2026

 

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